
Eram seis e cinqüenta da manhã de uma terça-feira chuvosa quando o despertador de Antonio tocou. Ao terceiro toque ele se acordou e permaneceu estático. Seus olhos miravam o teto de seu quarto, parcamente iluminado pelos primeiros raios da cinzenta manhã que estava nascendo, mas sua mente flutuava por diversos lugares e momentos que haviam mexido com suas idéias e sentimentos nos últimos dias. Levantar, lavar o rosto, se vestir, tomar café, repassar o jornal e ir para o trabalho seria o lógico. Mas, por algum motivo que a sua própria razão desconhecia, talvez aquele não fosse o dia para se fazer o óbvio. Mas o que fazer, ou por que fazer? Será que sempre algo deveria ser feito? Ou bastava criar coragem e mudar o até então inexorável rumo das coisas…
Sua vida era segura, estável profissional e emocionalmente, sem sobressaltos ou desvios de rota. Mas isso era bom ou ruim? O casamento estava marcado, o destino da lua de mel estava definido, tudo se encaminhava para um final feliz. Mas feliz para quem? Até que ponto aquela estabilidade tão sonhada não era no fundo uma covardia diante da vida? O raso é mais seguro, mas reserva muito menos mistérios do que o fundo, e os mistérios podem assustar, mas com certeza não padecem de monotonia. Um dia após o outro dia, após o outro dia, após o outro dia, era isso que ele queria? A promoção no emprego, a casa na praia, a reforma e a piscina, o carro maior, melhor que o do vizinho, o sonho da classe media realizado com louvor. Então ele tinha conseguido. E a noiva, bonita, asséptica, fiel, sempre presente e confiável, a mulher ideal (para quem?).
Já eram sete e trinta e cinco e ele continuava estático olhando para o teto. Mas o que fazer para se desvencilhar de tudo isso? Seis anos de namoro, um e meio de noivado, nove anos na mesma empresa, três promoções e todos aqueles bônus de final de ano… Não adiantava se rebelar, era preciso achar um novo rumo, pensar em algo que fosse factível e que pudesse trazer satisfação. Mas onde procurar por isso, já que ainda não inventaram o mercado que vende realização pessoal? Ou já inventaram e Antonio é que não sabe? Mas se isso existe deve ser bem caro. Melhor parar de sonhar e voltar à realidade, maldita, mas ao alcance. Já passavam das oito e não tinha mais como não chegar atrasado ao trabalho. O chefe não ia gostar e teria que chegar atrasado ao almoço que havia combinado com a noiva. Seria um drama (para ela), mas ele sabia que aquele almoço com certeza não traria nada de novo, no máximo uma cor nova para o envelope do convite do casamento. Não, isso ele não queria (nem o envelope nem o casamento). Mas o que todos diriam? Mas não eram todos que iam casar e nem que tinham que agüentar um trabalho chato para poder ter uma estabilidade que ele nem sabia o que significava. Nove e meia passada e o teto já começava a encará-lo de volta. Alguma atitude precisava ser tomada, mas qual? Difícil saber por onde começar, depois de uma vida inteira se enredando em atitudes e decisões que o haviam levado a esse ponto, e que tornaram quase impossível encontrar o início do fio que iria desenovelar sua existência. Mas se auto condenar por simples comodismo também era demais. Algo precisava ser feito e talvez a primeira atitude seria não ir trabalhar nessa terça-feira chuvosa. Ignorar o chamado do despertador, essa máquina amoral e instigante que diariamente lhe perturbava simplesmente por fazer o que ele próprio ordenava. Coisa boa a vida, mas nada fácil entendê-la.
Onze horas e a manha já estava perdida. O melhor era não ir trabalhar (nunca mais voltar a trabalhar naquele lugar). Essa era a decisão mais acertada a se tomar. A família estranharia a decisão, e temeria pelo futuro da rapaz, que parecia tão encaminhado (para onde), a noiva acharia uma infantilidade da parte dele e perguntaria se ele não estava esquecendo que eles já estavam de casamento marcado. Ele talvez aproveitasse a situação para dizer que também queria se demitir do cargo de noivo. Ela que arranjasse outro para aporrinhar com urgências de rendas e laçarotes. Quem diria que uma terça chuvosa e de ressaca causaria tantas transformações.
Nada havia sido feito ainda, mas sua cabeça borbulhava em idéias quando o relógio marcou meio dia. Se levantou sem pressa, foi ao banheiro e depois, ainda de pijama, desceu para almoçar. Todos estranharam, pois achavam que ele tinha passado a manhã no trabalho, como era de costume nos dias de semana. Perguntaram se ele estava doente, e pela cara que fizeram preferiam que ele tivesse respondido que sim. Mas como sua resposta foi negativa, perguntaram por que então ele não tinha ido trabalhar. Quando ele disse que tinha decidido largar o emprego, a mãe não conteve um surpreso-atacado por que?!!? A resposta foi curta e simples: Porque sim, porque hoje eu acordei, pensei, e decidi largar meu maldito emprego. E não, não estou pensando no que a minha noiva vai dizer e nem no que vai acontecer com o meu casamento, até porque não pretendo mais me casar. Ao menos não agora, e muito menos com ela. Sim, vou falar com ela assim que possível. Por sinal, daqui a pouco ela deve me ligar, pois tínhamos combinado de almoçar no centro hoje e ela já deve estar atucanadissima com o meu atraso. Quando o celular dele tocou, todos na mesa ficaram se olhando. Ele calmamente se levantou e foi até o aparelho. Não, não pude ir porque hoje não fui trabalhar. Porque não. Sim, precisamos conversar. Sim, pode ser hoje de noite. Desligou e voltou para o seu prato que ainda estava pela metade.
De tarde leu o jornal, assistiu TV e terminou um livro que nunca encontrava tempo para terminar. Junto com a noite chegou a noiva, nervosa, tensa, irritada e morrendo de medo.
Depois de muito choro e pedidos de explicação ele apenas disse: É, estou certo de que é isso que eu quero. Não, não estou pensando no futuro e nem nas conseqüências, mas quem é que entende de futuro, ou até mesmo de conseqüências, que nunca se sabe quais serão? Ela foi embora esbravejando entre lágrimas e gestos bruscos. A família ouviu os gritos, mas achou melhor não perguntar nada, a forma como a moça saiu já explicava tudo. Ele voltou para o seu quarto, ligou para alguns amigos, trocou de roupa e saiu dizendo que não tinha hora para voltar. Já no bar, entre palavras de protesto e admiração contou tudo o que tinha acontecido (ou não tinha acontecido) naquela terça chuvosa. E a noite seguiu entre copos, garrafas, discussões futebolísticas e bundas e coxas que iam e vinham de forma provocativa e dissimulada. Às três da manha ele estava chegando no apartamento de uma dessas bundas, que a essa hora já tinha rosto, nome e endereço. Às cinco e meia voltou para a casa, bêbado, aliviado, pensativo e com um sorriso intrigante.
Então, eram seis e cinqüenta da manha de uma terça-feira chuvosa quando o despertador de Antonio tocou. Ao terceiro toque ele se acordou e permaneceu estático.